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domingo, outubro 04, 2015

O palhaço e o professor

    Quando eu tinha em torno dos meus 16 anos eu estava no segundo ano do ensino médio, uma época que definiu muito do que eu sou hoje, pessoalmente e profissionalmente. Naquela época, como todos os adolescentes, eu era um posso de arrogância, ainda mais com a descoberta recente do sarcasmo. Eu estudava de tarde e a noite, no ensino técnico e médio respectivamente, e por mais que os alunos do noturno tinham outras obrigações, como trabalho e, alguns poucos, família, a minha escola nunca foi o estereótipo daquela escola de alunos brigando com professores e o tráfico tomando conta. Era algo tranquilo, muitos queriam estudar e por mais que isto já estivesse em falta naquele tempo, o respeito aos professores não era de todo ausente.

    Um destes professores que eu mais respeitava, e que aqui vou contar como aprendi a respeitar um pouco mais, era meu professor de artes do segundo ano. Ele era uma figura excêntrica de certo modo, não era aquele professor que apenas passava o conteúdo, respondia meia dúzia de perguntas e ia embora, ele se preocupava em tentar colocar alguma coisa na cabeça das pessoas, de estimula-las e faze-las produzir algo, claro, tudo isso dentro de suas limitações de tempo e recursos que a escola poderia oferecer.

    Um belo dia, eu e outros alunos estávamos subindo as escadas da escola trocando de sala de aula quando encontramos este professor, e conversando com um de nossos colegas, que na época estava fazendo um curso de artes circenses, este professor também se pronunciou dizendo que também já fez um curso desses. Eu, no alto de minha arrogância, soltei a seguinte frase:

— Então você aprendeu a ser palhaço professor?

E ele, sem nenhum sinal de repreensão ou querendo aparentar um ar de superioridade me falou:

— Sabe, no circo o palhaço é sem dúvidas um dos que mais trabalha, além de suas apresentações, ele também é um operário dentro do circo, ajudando na manutenção e também em todo o serviço braçal. Não é fácil ser palhaço.

    Acho que no momento eu fiz um "É" seco e abaixei a cabeça, depois parei para pensar sobre isso, e ainda penso até hoje. Não era fácil ser palhaço, nem professor, nem diretor, nem merendeira, inspetor e estar ali, com todos este alunos. Não sei se era a intensão dele me fazer pensar assim, mas ainda bem que ele me falou isso, pois pensar isto tudo me fez ter dor de cabeça e ainda faz, pois sei que quando eu sinto isso são os meus conceitos estúpidos sendo quebrados e minha zona de conforto sendo rompida. Eu sou grato por ele ter dito isso e não apenas ter mandado eu parar de falar asneiras ou ter ficado quieto, sem nunca tentar me explicar esta situação.


    Recentemente eu relembrei de tudo isso vendo um filme, um drama chamado "O Substituto", que me fez pensar sobre o ser humano que esta tentando colocar alguma coisa dentro de nossas cabeças, tentando fazer algo bom, de valor inestimável e por muito pouco em troca. Por mais que seja uma profissão, um trabalho, existem coisas na profissão de professor que estão presentes em muitas poucas outras profissões.


   Senti que precisava falar isso, da minha gratidão ao meu professor de artes, de matemática, de português (que me perdoe pela grafia deste texto), aos meus professores de geografia, história e ciências, e a todos os professores que se preocuparam e se preocupam comigo e todos os meus colegas, minha mais profunda gratidão, e tudo que deu certo na minha vida, foi em grande parte pelo esforço que vocês fizeram para me ajudar. 

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Frase

“Inovação distingue um líder de um seguidor.”
(Steve Jobs)